SOBRE VOCÊS É CONTADA A POESIA...



Lacuna

2 de abril de 2011
Não te encontro sentado a esmo nos bancos escuros
O que me resta são murmúrios,
e descubro que os caminhos não são seguros


Não te vejo perdido nos becos de esquinas
Nem tampouco na musicalidade das cantigas latinas,
no ingênuo caminhar das bailarinas


Não sinto tua presença num livro de aventura
Culpo sem razão o descompasso da literatura,
Em que página esconderam a ternura?

Experimento a falta do teu olhar misterioso
Só posso enxergar um campo belicoso,
repleto de trincheiras com dimensões do contencioso

É quando a rotina me prende entre seus muros
que tua ausência me persegue em cada movimento absurdo
O que reserva-nos o futuro?


Felipe Nogueira

Estado das coisas

28 de fevereiro de 2011
Deixa estar... e troco as concepções de lugar

Deixa estar... e mudo minhas opiniões sobre os fatos

Deixa estar... e o olhar distraído me conduz rumo ao desconhecido

Deixa estar... e me divirto discutindo a fantástica vida das centopéias

Deixa estar... e, numa tarde de quinta-feira, resolvo devorar Dostoievsky

Deixa estar... e me converto para o mais exótico dos credos

Deixa estar... e passo a morar na longínqua tribo da nação Aimoré

Deixa estar... e permaneço de molho nas águas diáfanas do mar

Deixa estar... e me transformo num pianista de efêmera repercussão mundial

Deixa estar... e rasgo, página por pagina, os manuais de instruções

Deixa estar... e o inesperado torna-se imperativo

Deixa estar... e meu estado fica de pernas para o ar


Felipe Nogueira

Cá de dentro

27 de fevereiro de 2011
Quem observa a casca não imagina o turbilhão cá dentro. Sou morada de colapsos intensos que de maneira voraz invadem as sinapses e interferem a comunicação convencional entre os neurônios. Há sempre um forasteiro em cada pensamento, contrariando qualquer padrão de convívio, negando qualquer modelo simplista. Ambiguidades e contradições regulam meus sentimentos. A distância entre o desejo e o desprezo se traduz numa linha tênue capaz de dissipar-se com um leve sopro. Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo: tristeza, dor, alegria, reconhecimento, amizade, empenho, saudade, medo...

De que lado você está?

23 de janeiro de 2011
Como de hábito, pela força que move todo automatismo humano, rodei a chave e, pasmem, a fechadura manteve intacta a porta. Será que tentara a chave errada? Tentei todas as três opções disponíveis no já desbotado chaveiro que ganhara na loja de roupas, brinde frágil do monopólio capitalista. Nada obtive como resposta. Permanecia fora, do lado de cá. “Sem-teto?” - imaginei depressa. “Qual a utilidade de um teto quando o mundo tem um céu maravilhoso pra vos oferecer?” - respondeu uma voz mansa do lado de lá. Apertei a campainha, já corroída pela ação do tempo. Ninguém atendeu. “Sem lar?” - insisti com vivacidade. “De que serve um lar se a tribo do bicho-homem expande seus domínios sobre os mais variados ambientes do planeta?” - a mansidão da voz ecoou em meus ouvidos, parecendo mesmo que saía da pequena brecha que separava a porta metálica do chão. Toquei ainda uma dezena de vezes a campainha, que cansada teimou em falhar. “Parece que não há ninguém aí dentro” - foi o pensamento-angústia que perpassou sobre mim. Para comprovar a infeliz hipótese, resolvi praticar o talento de espião herdado da infância que, por sinal, já se encontrava num ponto distante da linha temporal que nos persegue. Janelas mais altas exigem gigantes-espiões. Para completar a altura necessária utilizei tijolos esquecidos no quintal. Precisei ficar na ponta dos pés para jogar o olhar sobre o cômodo. Tudo que vi foram móveis antigos, empoeirados, com destaque para um livro cheio de teia de aranha sobre a escrivaninha. “O que está havendo? Onde estão os outros?” - o desespero inflava as artérias do peito. “Não há ‘outros’... apenas você.” - a maldita voz ressoou trazendo uma leve brisa que me fez desequilibrar e desabar da gangorra improvisada. Abracei o chão. Arrastei-me até a entrada trancada e sentei-me, aproveitando as dores legadas na queda. O último sussurro que ouvi foi: “Não importa de que lado esteja, de cá ou de lá, o importante é estar do seu lado”. Por fim, ergui a cabeça e levantei-me. Passei pelo portão, sem esquecer de fechá-lo e caminhei até a estação mais próxima. Rumo a uma nova direção, rumo a um novo rumo.

Felipe Nogueira

O VÔO MAIS ALTO

19 de junho de 2010









A garoa cobria o asfalto surrado da vila de São Tomás,
anúncio da chegada de uma nova alma ao mundo dos homens
Até o anjo mais novo manifestara-se frente ao nascimento da pequena:
— Serás protagonista de grandes vôos em tua vida, Milena.

Quando completara 17 anos, Milena decidira:
— Vou-me embora com o Circo Conquista, quero ser trapezista.
Chorou sua mãe
Chorou sua irmã do meio
Chorou o vizinho e o padeiro
Só não chorou Milena, afinal partida é também esperança
Esperança de vida nova, quem sabe melhor
Promessa de sonhos.

Os dias não foram fáceis
Milena aprendeu a conviver com a nova companheira saudade,
Aprendeu a suportar os enjôos das constantes viagens,
na tentativa de equilibrar-se diante de tamanha liberdade
Por fim, aprendeu a amar Teco Cospe-Fogo.

Um dia, Teco a trocou por Basília, a ilusionista
E Milena finalmente chorou
Soluçava forte, parecia que o peito ardia em chamas
Dava até para sentir o cheiro da fumaça que despontava de seu coração
Mas Milena era moça decidida, levantou a cabeça
e decidiu voar...

Foram tantas quedas, sobressaltos, tormentas
Dificuldades contidas nos mais íntimos sonhos
Sonhos que também trazem-nos surpresas!

Ahhh! Dia alegre fora aquele que ganhara o tão cobiçado trapézio
Foram tantas apresentações, shows, aplausos
E o sorriso de Milena era cada vez mais largo.

Nervosa mostrou-se quando a informaram que o Circo se apresentaria
na velha vila de São Tomás
Recordações brotaram de sua mente
Lembranças da infância, da família,
e da pequena casa amarela aos fundos da colina.

Parecia mesmo que todos os habitantes de São Tomás
foram admirar a artista conhecida
Olhos suspensos, atentos ao alto, substituindo qualquer holofote
que se deitara sobre a escuridão do picadeiro
E Milena fez do trapézio-amigo seu mundo de contemplações.

Foi arrebatada por uma súbita voz que lhe dizia:
— És protagonista de grande vôos, querida Milena. Voe mais alto...
Por mais que tentasse esquecê-la, a fala insistia:
— Vamos, voe mais alto...
Embora uma lona vermelha cobrisse o céu, Milena sentia o brilho forte das estrelas
Claro! A lua reluzia seu encanto pelo espaço infinito
— Não esqueças que és protagonista. Voe mais alto!
O mundo girava...
— Voe mais alto!

A trapezista voou...
As leis da física reagiram mais depressa que o normal
e a pobre caiu com a cabeça no chão.
O anjo mais novo finalmente ganhara a tão esperada companheira
para os vôos celestiais.

Chorou sua mãe
Chorou sua irmã do meio
Chorou o vizinho e o padeiro
Até o Palhaço Ripilico derramou lágrimas
Só não chorou Milena, afinal partida é também esperança
Esperança de vida nova, quem sabe melhor...

Felipe Nogueira

OLHOS DE RESSACA

18 de junho de 2010
— Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada."
Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve (...) ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, - para dizer alguma cousa,- que era capaz de os pentear, se quisesse.
— Você?
— Eu mesmo.
— Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.
— Se embaraçar, você desembaraça depois.
— Vamos ver.
(...)

E Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelho. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.
— Senta aqui, é melhor.
Sentou-se. "Vamos ver o grande cabeleireiro", disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tacto aqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo, outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa... Uma ninfa! (...) Enfim acabei as duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço, retoquei a obra, alargando aqui, achatando ali, até que exclamei:
— Pronto!
— Estará bom?
— Veja no espelho.
Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela rosto a rosto, mas trocados, os olhos de uma na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.
— Levanta, Capitu!
Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e...
Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas... Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos.

Dom Casmurro
Machado de Assis

CAPRICHOS

16 de junho de 2010
Carrego dentro de mim muitos caprichos
Alguns tão antigos quanto os Jardins Suspensos da Babilônia,
Outros tão geniosos que duelam contra todos os bichos
capazes de cruzar os mares gelados da Patagônia

Capricho
Manifesto de uma juventude insurgente
Que em defesa de seus anseios
se opõe, peleja e combate bravamente

Carrego dentro de mim muitos caprichos
Alguns tão ousados que se assemelham as veleidades de Carlota Joaquina,
Outros tão mesquinhos quanto os cochichos
perpetrados pela cidade sobre a pobre menina

Capricho
Nas mãos de um trovador
Poder de ser o mesmo
e ser outro com mesmo vigor

Carrego dentro de mim muitos caprichos
Muitas vezes tão confusos quanto uma leitura rápida do panfleto keynesiano
Outras tantas, tão conservadores que parecem os nichos
de intervenção praticados pelo Vaticano

Capricho
Vontade de potência
Símbolo da cobiça do homem-bicho
Teimosia, relutância
Puro lixo

Felipe Nogueira