SOBRE VOCÊS É CONTADA A POESIA...



Sedento

22 de março de 2013


















Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

—Drummond de Andrade



Não há explicação definitiva para a sede de mundo que carrego no âmago de minha juventude. A inquietude é traço pessoal: sempre busquei escapar dos grilhões de uma rotina que insiste em fixar-me em território determinado. Mudança é a única constante.
Há quem diga que me falte uma vontade deliberada de criar laços, sejam eles familiares, de amizade, quiçá de amor. A verdade é que optei por sobrepor-me a toda e qualquer barreira capaz de obstaculizar o livre movimento dos pés.

A realidade posta preza por despotismo. O comportamento é condicionado pelo capital. A satisfação das necessidades básicas é suplantada pela busca incessante do lucro, em formas cada vez mais ampliadas de reprodução das convenções sociais.
Onde foram parar a subjetividade, as experiências e os conflitos únicos de cada indivíduo? Colocaram tudo dentro de um saco e amarram com as cordas da opressão. E será a vida um fato consumado? Entendo que não. A consciência, descobri, é a autonomia para cuidar do destino, escolhendo os caminhos da vida.

No exercício de um idealismo voluntário, sou proprietário de sonhos que escapam da esfera privada. Almejo a mudança das coisas. Não uma transformação provocada pelo movimento mecânico do devir, mas algo ao qual não posso definir com precisão. Como denominar a emancipação ampliada do ser humano? Como dar nome a um fenômeno que esgota a si mesmo? Talvez seja esse transbordamento de ideais para além das fronteiras do ser a justificativa aceitável para o meu anseio de mundo.

Navegar é preciso, por isso brado: 
“Mundo, vasto mundo, recebe os sonhos do teu visitante”.




Felipe Nogueira.

mitos voadores

3 de março de 2013














O mito é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mito brilhante e mudo.

Fernando Pessoa



Estou certo de que estes voavam.
Completavam voltas inteiras sobre minha cabeça.
De vez em quando arriscavam-se a ir mais longe, rodopiando freneticamente sobre os telhados escaldantes de meio-dia.
Eram muitas as crenças envolvidas nesses voos juvenis. Algumas remontavam a espaços remotos, outras a tempos além-mar. Muitas carregavam conceitos socialmente construídos, reproduzindo o “mais do mesmo”. Também haviam aquelas sedentas por desconstrução, relativizando teoremas e manias.
Mas algo as tornava comuns: eram todas humanas. Não na razão, que supõe-se presente na matéria, ainda que amorfa.  Sua humanidade traduzia-se no livre-arbítrio que manipula as diversas manifestações da vida.
Pronto. Deram-me o poder. Podia, assim, escolher qualquer uma dessas peças voadoras, conforme a conveniência exigisse.
Enquanto esperava a chegada, agarrava o par de asas mais próximo e saboreava os mistérios do número sete: cometia os sete pecados capitais, conhecia os sete sábios da Filosofia Ocidental, desbravava a fúria dos sete mares e, quando a espera era demasiadamente extensa, tecia longas conversas com os sete anões.
Nos momentos de euforia, capturava em um único salto aquela crença capaz de transbordar as boas sensações para as fronteiras do ser. Provava da felicidade em sua plenitude.
Adentrei, por várias vezes, em domínios de outrem: danças estranhas, cerimônias e sacrifícios ritualísticos, tomei conhecimento de heróis nacionais.
Hoje, convicto de que meus escritos são mitos. Só lhes faltam aprender a voar.



Felipe Nogueira.

Por não estar só

1 de agosto de 2012












 O equilíbrio entre o prazer e a dor era eu. O sentimento que nutria essa condição permanecia inerte frente a desejos incontáveis, simples casca regrada ao arremedo de ser. Ele fora afastado pela crença na ciência, disfarce legalizado para a vontade de potência. Na outra via, ela permanecia envolta pelo sentido da fé, banhada por orações e súplicas da filha que carregava em si mesma. Ele amava a capacidade dela encantar corações distraídos. Ela amava a fala leve dele e seu gosto pelas palavras. Abriria ele mão do método científico? Estaria ela disposta a abandonar as revelações? Sim, encontravam-se deveras no conflito secular que conduzira as paixões humanas durante todo o passado, jogo tipicamente renascentista. Pelas mãos de Michelangelo o amor impossível fora esculpido e, outrossim, herdado por gerações futuras. O contemporâneo carrega no bojo o gosto amargo de amantes cujo sonho é prisão eterna. O outro é escape, fuga necessária. E os caminhos, estes são tortuosos.  Havia rastros de inomináveis peregrinações, terra batida pelo andar árduo e lavada por lágrimas de almas forasteiras. Estamos fadados a percorrer o mesmo trajeto?



Felipe Nogueira

Conotativa

12 de maio de 2012


A menina que exibes
nunca é inteira, sempre metade
na metafísica dos teus segredos, conhecer-te é
navegar em vocábulos cujos significados ganham novas utilidades

Nas tuas metáforas
sonho é doce degustado, comprado na padaria da esquina
tempo é senhor precipitado, chorando gotas de ansiedade clandestina
aurora, sorriso compartilhado, roubado da ingenuidade genuína

diálogos são desencontros literários, traduzindo mimas e rimas em diários
dias tristes são cenários esquecidos na gaveta do armário
poesia, brechas de argumentos adversários

mar é paixão antiga, para o desprazer da lagoa
cores, sonhos possíveis que o travesseiro abençoa
mãos dadas, pulo naquela tarde de garoa

E no desbravar do teu faz-de-conta verdadeiro
teus negros fios tecem vínculos que me bagunçam
não por partes, mas por inteiro


Felipe Nogueira

Intenções líricas

7 de abril de 2012















No atual estado das coisas,

já cansado de convencionalismos,

desconfio de tudo aquilo que materializa vil submissão

Prezo pela ascendência dos bons ofícios

práticas revoltas de libertação


Arrepio

face aos desencontros literários

planejados pelo poeta aprendiz

compromissado com a arte de traduzir em diários
as emoções civis

Sinto frio

quando, atento aos afagos do músico,

suas notas reciclam os passos das bailarinas

e ressaltam o sabor cáustico

dos ventos nas campinas


Teço o fio

do laço do cabelo da menina

que, com ingenuidade genuína,

sorri das trapaças disfarçadas do palhaço


Aprecio

os holofotes que, na diversidade de palcos

iluminam a vida de seres que, mortais como eu

e movidos pela mesma paixão teatral,

fazem de suas vidas um espetáculo


Eis que assim

anuncio uma viagem pela exteriorização da dominação

Sedento por cenários, personagens, sons, palavras

que transformem-me no “eu lírico” almejado



Sem mais para o momento



Felipe Nogueira

Aceso

22 de outubro de 2011
















Sim,
Lembro-me com riqueza de detalhes
dos murmúrios que, rasgando tua garganta,
convidavam-me ao deleite que é ouvir tua voz
salgada como as ondas do mar quebrando vorazmente em rebentações

Tu aproximavas-se do meu pescoço
e lançava o doce veneno de promessas ingênuas:
"Ficarei ao teu lado enquanto viverem os poetas"

Mal pronunciaras tuas palavras
e tu não estavas ao lado
O amargo da solidão tornara-se companheiro das noites quentes de setembro

Teus sussurros ainda ecoam em meus sonhos
alimentando uma chama que, embora o vento sorrateiro insista em apagar,
queima silenciosa no peito


Felipe Nogueira

Desvio

10 de abril de 2011
A última coisa que senti foi a queda
E no segundo seguinte era um anjo
Voando sob trincheiras rasgando o solo
e o peito dos combatentes

A solidez sofreu abalos sísmicos
de magnitude tão intensa
que mudança era a nova ordem
A geração dos heróis fora, enfim, solapada

Do muro edificado com cimento-tradição, tijolos-dogmas
(verdades deveras frágeis)
Avistei apenas destroços
cujas cinzas reluziam incertezas

Duas opções,
(reproduzindo o clássico modelo maniqueísta):
Voar em direção a mais alta nuvem ou
Rasgar o par de asas com mãos sedentas de desejo

A tempestade brusca e repentina
foi mais veloz que a escolha do intelecto
Derrubando-me face outra realidade
tão distante da vida solidificada durante todo o tempo

Sinto frio agora


Felipe Nogueira