SOBRE VOCÊS É CONTADA A POESIA...



Por não estar só

1 de agosto de 2012












 O equilíbrio entre o prazer e a dor era eu. O sentimento que nutria essa condição permanecia inerte frente a desejos incontáveis, simples casca regrada ao arremedo de ser. Ele fora afastado pela crença na ciência, disfarce legalizado para a vontade de potência. Na outra via, ela permanecia envolta pelo sentido da fé, banhada por orações e súplicas da filha que carregava em si mesma. Ele amava a capacidade dela encantar corações distraídos. Ela amava a fala leve dele e seu gosto pelas palavras. Abriria ele mão do método científico? Estaria ela disposta a abandonar as revelações? Sim, encontravam-se deveras no conflito secular que conduzira as paixões humanas durante todo o passado, jogo tipicamente renascentista. Pelas mãos de Michelangelo o amor impossível fora esculpido e, outrossim, herdado por gerações futuras. O contemporâneo carrega no bojo o gosto amargo de amantes cujo sonho é prisão eterna. O outro é escape, fuga necessária. E os caminhos, estes são tortuosos.  Havia rastros de inomináveis peregrinações, terra batida pelo andar árduo e lavada por lágrimas de almas forasteiras. Estamos fadados a percorrer o mesmo trajeto?



Felipe Nogueira

Conotativa

12 de maio de 2012


A menina que exibes
nunca é inteira, sempre metade
na metafísica dos teus segredos, conhecer-te é
navegar em vocábulos cujos significados ganham novas utilidades

Nas tuas metáforas
sonho é doce degustado, comprado na padaria da esquina
tempo é senhor precipitado, chorando gotas de ansiedade clandestina
aurora, sorriso compartilhado, roubado da ingenuidade genuína

diálogos são desencontros literários, traduzindo mimas e rimas em diários
dias tristes são cenários esquecidos na gaveta do armário
poesia, brechas de argumentos adversários

mar é paixão antiga, para o desprazer da lagoa
cores, sonhos possíveis que o travesseiro abençoa
mãos dadas, pulo naquela tarde de garoa

E no desbravar do teu faz-de-conta verdadeiro
teus negros fios tecem vínculos que me bagunçam
não por partes, mas por inteiro


Felipe Nogueira

Intenções líricas

7 de abril de 2012















No atual estado das coisas,

já cansado de convencionalismos,

desconfio de tudo aquilo que materializa vil submissão

Prezo pela ascendência dos bons ofícios

práticas revoltas de libertação


Arrepio

face aos desencontros literários

planejados pelo poeta aprendiz

compromissado com a arte de traduzir em diários
as emoções civis

Sinto frio

quando, atento aos afagos do músico,

suas notas reciclam os passos das bailarinas

e ressaltam o sabor cáustico

dos ventos nas campinas


Teço o fio

do laço do cabelo da menina

que, com ingenuidade genuína,

sorri das trapaças disfarçadas do palhaço


Aprecio

os holofotes que, na diversidade de palcos

iluminam a vida de seres que, mortais como eu

e movidos pela mesma paixão teatral,

fazem de suas vidas um espetáculo


Eis que assim

anuncio uma viagem pela exteriorização da dominação

Sedento por cenários, personagens, sons, palavras

que transformem-me no “eu lírico” almejado



Sem mais para o momento



Felipe Nogueira