SOBRE VOCÊS É CONTADA A POESIA...



Por não estar só

1 de agosto de 2012












 O equilíbrio entre o prazer e a dor era eu. O sentimento que nutria essa condição permanecia inerte frente a desejos incontáveis, simples casca regrada ao arremedo de ser. Ele fora afastado pela crença na ciência, disfarce legalizado para a vontade de potência. Na outra via, ela permanecia envolta pelo sentido da fé, banhada por orações e súplicas da filha que carregava em si mesma. Ele amava a capacidade dela encantar corações distraídos. Ela amava a fala leve dele e seu gosto pelas palavras. Abriria ele mão do método científico? Estaria ela disposta a abandonar as revelações? Sim, encontravam-se deveras no conflito secular que conduzira as paixões humanas durante todo o passado, jogo tipicamente renascentista. Pelas mãos de Michelangelo o amor impossível fora esculpido e, outrossim, herdado por gerações futuras. O contemporâneo carrega no bojo o gosto amargo de amantes cujo sonho é prisão eterna. O outro é escape, fuga necessária. E os caminhos, estes são tortuosos.  Havia rastros de inomináveis peregrinações, terra batida pelo andar árduo e lavada por lágrimas de almas forasteiras. Estamos fadados a percorrer o mesmo trajeto?



Felipe Nogueira