SOBRE VOCÊS É CONTADA A POESIA...



O VÔO MAIS ALTO

19 de junho de 2010









A garoa cobria o asfalto surrado da vila de São Tomás,
anúncio da chegada de uma nova alma ao mundo dos homens
Até o anjo mais novo manifestara-se frente ao nascimento da pequena:
— Serás protagonista de grandes vôos em tua vida, Milena.

Quando completara 17 anos, Milena decidira:
— Vou-me embora com o Circo Conquista, quero ser trapezista.
Chorou sua mãe
Chorou sua irmã do meio
Chorou o vizinho e o padeiro
Só não chorou Milena, afinal partida é também esperança
Esperança de vida nova, quem sabe melhor
Promessa de sonhos.

Os dias não foram fáceis
Milena aprendeu a conviver com a nova companheira saudade,
Aprendeu a suportar os enjôos das constantes viagens,
na tentativa de equilibrar-se diante de tamanha liberdade
Por fim, aprendeu a amar Teco Cospe-Fogo.

Um dia, Teco a trocou por Basília, a ilusionista
E Milena finalmente chorou
Soluçava forte, parecia que o peito ardia em chamas
Dava até para sentir o cheiro da fumaça que despontava de seu coração
Mas Milena era moça decidida, levantou a cabeça
e decidiu voar...

Foram tantas quedas, sobressaltos, tormentas
Dificuldades contidas nos mais íntimos sonhos
Sonhos que também trazem-nos surpresas!

Ahhh! Dia alegre fora aquele que ganhara o tão cobiçado trapézio
Foram tantas apresentações, shows, aplausos
E o sorriso de Milena era cada vez mais largo.

Nervosa mostrou-se quando a informaram que o Circo se apresentaria
na velha vila de São Tomás
Recordações brotaram de sua mente
Lembranças da infância, da família,
e da pequena casa amarela aos fundos da colina.

Parecia mesmo que todos os habitantes de São Tomás
foram admirar a artista conhecida
Olhos suspensos, atentos ao alto, substituindo qualquer holofote
que se deitara sobre a escuridão do picadeiro
E Milena fez do trapézio-amigo seu mundo de contemplações.

Foi arrebatada por uma súbita voz que lhe dizia:
— És protagonista de grande vôos, querida Milena. Voe mais alto...
Por mais que tentasse esquecê-la, a fala insistia:
— Vamos, voe mais alto...
Embora uma lona vermelha cobrisse o céu, Milena sentia o brilho forte das estrelas
Claro! A lua reluzia seu encanto pelo espaço infinito
— Não esqueças que és protagonista. Voe mais alto!
O mundo girava...
— Voe mais alto!

A trapezista voou...
As leis da física reagiram mais depressa que o normal
e a pobre caiu com a cabeça no chão.
O anjo mais novo finalmente ganhara a tão esperada companheira
para os vôos celestiais.

Chorou sua mãe
Chorou sua irmã do meio
Chorou o vizinho e o padeiro
Até o Palhaço Ripilico derramou lágrimas
Só não chorou Milena, afinal partida é também esperança
Esperança de vida nova, quem sabe melhor...

Felipe Nogueira

OLHOS DE RESSACA

18 de junho de 2010
— Deixe ver os olhos, Capitu.
Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada."
Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve (...) ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, - para dizer alguma cousa,- que era capaz de os pentear, se quisesse.
— Você?
— Eu mesmo.
— Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.
— Se embaraçar, você desembaraça depois.
— Vamos ver.
(...)

E Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelho. Peguei-lhe dos cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente, desde a testa até as últimas pontas, que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.
— Senta aqui, é melhor.
Sentou-se. "Vamos ver o grande cabeleireiro", disse-me rindo. Continuei a alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tacto aqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, às vezes por desazo, outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa... Uma ninfa! (...) Enfim acabei as duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço, retoquei a obra, alargando aqui, achatando ali, até que exclamei:
— Pronto!
— Estará bom?
— Veja no espelho.
Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ela rosto a rosto, mas trocados, os olhos de uma na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu.
— Levanta, Capitu!
Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e...
Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles me clarearam vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas... Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos.

Dom Casmurro
Machado de Assis

CAPRICHOS

16 de junho de 2010
Carrego dentro de mim muitos caprichos
Alguns tão antigos quanto os Jardins Suspensos da Babilônia,
Outros tão geniosos que duelam contra todos os bichos
capazes de cruzar os mares gelados da Patagônia

Capricho
Manifesto de uma juventude insurgente
Que em defesa de seus anseios
se opõe, peleja e combate bravamente

Carrego dentro de mim muitos caprichos
Alguns tão ousados que se assemelham as veleidades de Carlota Joaquina,
Outros tão mesquinhos quanto os cochichos
perpetrados pela cidade sobre a pobre menina

Capricho
Nas mãos de um trovador
Poder de ser o mesmo
e ser outro com mesmo vigor

Carrego dentro de mim muitos caprichos
Muitas vezes tão confusos quanto uma leitura rápida do panfleto keynesiano
Outras tantas, tão conservadores que parecem os nichos
de intervenção praticados pelo Vaticano

Capricho
Vontade de potência
Símbolo da cobiça do homem-bicho
Teimosia, relutância
Puro lixo

Felipe Nogueira

COETERIS PARIBUS

5 de junho de 2010
O economista é um bruxo disfarçado de cientista social
Troca a capa e a varinha por terno, gravata e calculadora
Troca a bola de cristal por gráficos, estatísticas, regressões
Basta mencionar duas palavras mágicas: "coeteris paribus"
E o mundo é pequeno para suas previsões

Felipe Nogueira