SOBRE VOCÊS É CONTADA A POESIA...



JOÃO E MARIA

29 de maio de 2010

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês



Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

Composição: Chico Buarque/ Sivuca

AMOR, UM BEM ESCASSO

23 de maio de 2010
O sol brilhava forte no azul diáfano do céu.

Um pequeno raio descobriu uma brecha na cortina da janela e decidiu brincar. O vento balançava o já desbotado tecido pendurado na janela de um lado ao outro, fazendo com que aquele feixe de luz solar se movesse de minhas pálpebras cerradas ao nariz... um movimento cíclico que lembrava as flutuações do modo de produção capitalista.

Ocorreu então o despertar matinal... aquele em que a utilidade marginal do sono já não se iguala a desutilidade provocada pelo cansaço humano.

Sentei no colchão e vi que o "Varian Baby" continuava aberto sobre a cabeceira da cama... resquícios de uma embriaguez microeconômica na madrugada.

Ainda sentia o doce gosto do sonho que tivera. Sonhara com ela... me observava com aquele olhar sem resposta, aqueles olhos de quem guarda segredos ingênuos. Fazia uma semana que não a via, o que contribuía para o crescimento a taxas crescentes dos soluços em meu peito.

O que fazer quando há uma escassez de amor em nossas vidas?
O dia seria longo, assim como fora a vida da lei de Say!!!

Basta! Chega de amores platônicos. Mas o que fazer quando acreditamos em coisas que não têm respaldo na realidade, quando cremos que o pleno emprego é a situação normal prevalecente? Uma revolução keynesiana se faz necessária em minha alma.

Penso que o verdadeiro problema macroeconômico é o desemprego do meu coração.

Felipe Nogueira

RESSACA

21 de maio de 2010
O corpo não é mais abrigo da alma
A mente não é moradia dos sonhos
E eu já não caibo em mim.

O espaço se reduz a milímetros
O tempo é encurtado em milésimos
E já não caibo na dimensão deste mundo.

Os lábios não provam mais o doce sabor
O olhar não traduz os mesmos desejos
Nem as mãos experimentam o calor
E já não caibo em teu abraço.

Recolho os pedaços, as sobras, os restos
Em desespero, tento colar os cacos
Mas os cacos são tão pequenos
Que nossas vidas já não cabem dentro deles.

Perdido na escuridão da lama
Vagando por entre medos, espinhos, soluços
Caibo apenas na solidão humana.

Felipe Nogueira