SOBRE VOCÊS É CONTADA A POESIA...



Aceso

22 de outubro de 2011
















Sim,
Lembro-me com riqueza de detalhes
dos murmúrios que, rasgando tua garganta,
convidavam-me ao deleite que é ouvir tua voz
salgada como as ondas do mar quebrando vorazmente em rebentações

Tu aproximavas-se do meu pescoço
e lançava o doce veneno de promessas ingênuas:
"Ficarei ao teu lado enquanto viverem os poetas"

Mal pronunciaras tuas palavras
e tu não estavas ao lado
O amargo da solidão tornara-se companheiro das noites quentes de setembro

Teus sussurros ainda ecoam em meus sonhos
alimentando uma chama que, embora o vento sorrateiro insista em apagar,
queima silenciosa no peito


Felipe Nogueira

Desvio

10 de abril de 2011
A última coisa que senti foi a queda
E no segundo seguinte era um anjo
Voando sob trincheiras rasgando o solo
e o peito dos combatentes

A solidez sofreu abalos sísmicos
de magnitude tão intensa
que mudança era a nova ordem
A geração dos heróis fora, enfim, solapada

Do muro edificado com cimento-tradição, tijolos-dogmas
(verdades deveras frágeis)
Avistei apenas destroços
cujas cinzas reluziam incertezas

Duas opções,
(reproduzindo o clássico modelo maniqueísta):
Voar em direção a mais alta nuvem ou
Rasgar o par de asas com mãos sedentas de desejo

A tempestade brusca e repentina
foi mais veloz que a escolha do intelecto
Derrubando-me face outra realidade
tão distante da vida solidificada durante todo o tempo

Sinto frio agora


Felipe Nogueira

Lacuna

2 de abril de 2011
Não te encontro sentado a esmo nos bancos escuros
O que me resta são murmúrios,
e descubro que os caminhos não são seguros


Não te vejo perdido nos becos de esquinas
Nem tampouco na musicalidade das cantigas latinas,
no ingênuo caminhar das bailarinas


Não sinto tua presença num livro de aventura
Culpo sem razão o descompasso da literatura,
Em que página esconderam a ternura?

Experimento a falta do teu olhar misterioso
Só posso enxergar um campo belicoso,
repleto de trincheiras com dimensões do contencioso

É quando a rotina me prende entre seus muros
que tua ausência me persegue em cada movimento absurdo
O que reserva-nos o futuro?


Felipe Nogueira

Estado das coisas

28 de fevereiro de 2011
Deixa estar... e troco as concepções de lugar

Deixa estar... e mudo minhas opiniões sobre os fatos

Deixa estar... e o olhar distraído me conduz rumo ao desconhecido

Deixa estar... e me divirto discutindo a fantástica vida das centopéias

Deixa estar... e, numa tarde de quinta-feira, resolvo devorar Dostoievsky

Deixa estar... e me converto para o mais exótico dos credos

Deixa estar... e passo a morar na longínqua tribo da nação Aimoré

Deixa estar... e permaneço de molho nas águas diáfanas do mar

Deixa estar... e me transformo num pianista de efêmera repercussão mundial

Deixa estar... e rasgo, página por pagina, os manuais de instruções

Deixa estar... e o inesperado torna-se imperativo

Deixa estar... e meu estado fica de pernas para o ar


Felipe Nogueira

Cá de dentro

27 de fevereiro de 2011
Quem observa a casca não imagina o turbilhão cá dentro. Sou morada de colapsos intensos que de maneira voraz invadem as sinapses e interferem a comunicação convencional entre os neurônios. Há sempre um forasteiro em cada pensamento, contrariando qualquer padrão de convívio, negando qualquer modelo simplista. Ambiguidades e contradições regulam meus sentimentos. A distância entre o desejo e o desprezo se traduz numa linha tênue capaz de dissipar-se com um leve sopro. Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo: tristeza, dor, alegria, reconhecimento, amizade, empenho, saudade, medo...

De que lado você está?

23 de janeiro de 2011
Como de hábito, pela força que move todo automatismo humano, rodei a chave e, pasmem, a fechadura manteve intacta a porta. Será que tentara a chave errada? Tentei todas as três opções disponíveis no já desbotado chaveiro que ganhara na loja de roupas, brinde frágil do monopólio capitalista. Nada obtive como resposta. Permanecia fora, do lado de cá. “Sem-teto?” - imaginei depressa. “Qual a utilidade de um teto quando o mundo tem um céu maravilhoso pra vos oferecer?” - respondeu uma voz mansa do lado de lá. Apertei a campainha, já corroída pela ação do tempo. Ninguém atendeu. “Sem lar?” - insisti com vivacidade. “De que serve um lar se a tribo do bicho-homem expande seus domínios sobre os mais variados ambientes do planeta?” - a mansidão da voz ecoou em meus ouvidos, parecendo mesmo que saía da pequena brecha que separava a porta metálica do chão. Toquei ainda uma dezena de vezes a campainha, que cansada teimou em falhar. “Parece que não há ninguém aí dentro” - foi o pensamento-angústia que perpassou sobre mim. Para comprovar a infeliz hipótese, resolvi praticar o talento de espião herdado da infância que, por sinal, já se encontrava num ponto distante da linha temporal que nos persegue. Janelas mais altas exigem gigantes-espiões. Para completar a altura necessária utilizei tijolos esquecidos no quintal. Precisei ficar na ponta dos pés para jogar o olhar sobre o cômodo. Tudo que vi foram móveis antigos, empoeirados, com destaque para um livro cheio de teia de aranha sobre a escrivaninha. “O que está havendo? Onde estão os outros?” - o desespero inflava as artérias do peito. “Não há ‘outros’... apenas você.” - a maldita voz ressoou trazendo uma leve brisa que me fez desequilibrar e desabar da gangorra improvisada. Abracei o chão. Arrastei-me até a entrada trancada e sentei-me, aproveitando as dores legadas na queda. O último sussurro que ouvi foi: “Não importa de que lado esteja, de cá ou de lá, o importante é estar do seu lado”. Por fim, ergui a cabeça e levantei-me. Passei pelo portão, sem esquecer de fechá-lo e caminhei até a estação mais próxima. Rumo a uma nova direção, rumo a um novo rumo.

Felipe Nogueira