SOBRE VOCÊS É CONTADA A POESIA...



De que lado você está?

23 de janeiro de 2011
Como de hábito, pela força que move todo automatismo humano, rodei a chave e, pasmem, a fechadura manteve intacta a porta. Será que tentara a chave errada? Tentei todas as três opções disponíveis no já desbotado chaveiro que ganhara na loja de roupas, brinde frágil do monopólio capitalista. Nada obtive como resposta. Permanecia fora, do lado de cá. “Sem-teto?” - imaginei depressa. “Qual a utilidade de um teto quando o mundo tem um céu maravilhoso pra vos oferecer?” - respondeu uma voz mansa do lado de lá. Apertei a campainha, já corroída pela ação do tempo. Ninguém atendeu. “Sem lar?” - insisti com vivacidade. “De que serve um lar se a tribo do bicho-homem expande seus domínios sobre os mais variados ambientes do planeta?” - a mansidão da voz ecoou em meus ouvidos, parecendo mesmo que saía da pequena brecha que separava a porta metálica do chão. Toquei ainda uma dezena de vezes a campainha, que cansada teimou em falhar. “Parece que não há ninguém aí dentro” - foi o pensamento-angústia que perpassou sobre mim. Para comprovar a infeliz hipótese, resolvi praticar o talento de espião herdado da infância que, por sinal, já se encontrava num ponto distante da linha temporal que nos persegue. Janelas mais altas exigem gigantes-espiões. Para completar a altura necessária utilizei tijolos esquecidos no quintal. Precisei ficar na ponta dos pés para jogar o olhar sobre o cômodo. Tudo que vi foram móveis antigos, empoeirados, com destaque para um livro cheio de teia de aranha sobre a escrivaninha. “O que está havendo? Onde estão os outros?” - o desespero inflava as artérias do peito. “Não há ‘outros’... apenas você.” - a maldita voz ressoou trazendo uma leve brisa que me fez desequilibrar e desabar da gangorra improvisada. Abracei o chão. Arrastei-me até a entrada trancada e sentei-me, aproveitando as dores legadas na queda. O último sussurro que ouvi foi: “Não importa de que lado esteja, de cá ou de lá, o importante é estar do seu lado”. Por fim, ergui a cabeça e levantei-me. Passei pelo portão, sem esquecer de fechá-lo e caminhei até a estação mais próxima. Rumo a uma nova direção, rumo a um novo rumo.

Felipe Nogueira

1 comentários:

Fabienne disse...

Ameiiiiiiiiiiiiiiiii, perfeitoo!

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