O mito é o nada que é tudo.O mesmo sol que abre os céusÉ um mito brilhante e mudo.—Fernando Pessoa
Estou certo de que estes voavam.
Completavam voltas inteiras sobre
minha cabeça.
De vez em quando arriscavam-se a
ir mais longe, rodopiando freneticamente sobre os telhados escaldantes de
meio-dia.
Eram muitas as crenças envolvidas
nesses voos juvenis. Algumas remontavam a espaços remotos, outras a tempos
além-mar. Muitas carregavam conceitos socialmente construídos, reproduzindo o “mais
do mesmo”. Também haviam aquelas sedentas por desconstrução, relativizando
teoremas e manias.
Mas algo as tornava comuns: eram
todas humanas. Não na razão, que supõe-se presente na matéria, ainda que
amorfa. Sua humanidade traduzia-se no
livre-arbítrio que manipula as diversas manifestações da vida.
Pronto. Deram-me o poder. Podia,
assim, escolher qualquer uma dessas peças voadoras, conforme a conveniência
exigisse.
Enquanto esperava a chegada,
agarrava o par de asas mais próximo e saboreava os mistérios do número sete:
cometia os sete pecados capitais, conhecia os sete sábios da Filosofia
Ocidental, desbravava a fúria dos sete mares e, quando a espera era
demasiadamente extensa, tecia longas conversas com os sete anões.
Nos momentos de euforia,
capturava em um único salto aquela crença capaz de transbordar as boas
sensações para as fronteiras do ser. Provava da felicidade em sua plenitude.
Adentrei, por várias vezes, em
domínios de outrem: danças estranhas, cerimônias e sacrifícios ritualísticos,
tomei conhecimento de heróis nacionais.
Hoje, convicto de que meus escritos
são mitos. Só lhes faltam aprender a voar.
Felipe Nogueira.
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- Felipe Nogueira. Latino-americano, romântico, idealista, leitor do mundo. Poeta aprendiz...

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