SOBRE VOCÊS É CONTADA A POESIA...



mitos voadores

3 de março de 2013














O mito é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mito brilhante e mudo.

Fernando Pessoa



Estou certo de que estes voavam.
Completavam voltas inteiras sobre minha cabeça.
De vez em quando arriscavam-se a ir mais longe, rodopiando freneticamente sobre os telhados escaldantes de meio-dia.
Eram muitas as crenças envolvidas nesses voos juvenis. Algumas remontavam a espaços remotos, outras a tempos além-mar. Muitas carregavam conceitos socialmente construídos, reproduzindo o “mais do mesmo”. Também haviam aquelas sedentas por desconstrução, relativizando teoremas e manias.
Mas algo as tornava comuns: eram todas humanas. Não na razão, que supõe-se presente na matéria, ainda que amorfa.  Sua humanidade traduzia-se no livre-arbítrio que manipula as diversas manifestações da vida.
Pronto. Deram-me o poder. Podia, assim, escolher qualquer uma dessas peças voadoras, conforme a conveniência exigisse.
Enquanto esperava a chegada, agarrava o par de asas mais próximo e saboreava os mistérios do número sete: cometia os sete pecados capitais, conhecia os sete sábios da Filosofia Ocidental, desbravava a fúria dos sete mares e, quando a espera era demasiadamente extensa, tecia longas conversas com os sete anões.
Nos momentos de euforia, capturava em um único salto aquela crença capaz de transbordar as boas sensações para as fronteiras do ser. Provava da felicidade em sua plenitude.
Adentrei, por várias vezes, em domínios de outrem: danças estranhas, cerimônias e sacrifícios ritualísticos, tomei conhecimento de heróis nacionais.
Hoje, convicto de que meus escritos são mitos. Só lhes faltam aprender a voar.



Felipe Nogueira.

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