O mito é o nada que é tudo.O mesmo sol que abre os céusÉ um mito brilhante e mudo.—Fernando Pessoa
Estou certo de que estes voavam.
Completavam voltas inteiras sobre
minha cabeça.
De vez em quando arriscavam-se a
ir mais longe, rodopiando freneticamente sobre os telhados escaldantes de
meio-dia.
Eram muitas as crenças envolvidas
nesses voos juvenis. Algumas remontavam a espaços remotos, outras a tempos
além-mar. Muitas carregavam conceitos socialmente construídos, reproduzindo o “mais
do mesmo”. Também haviam aquelas sedentas por desconstrução, relativizando
teoremas e manias.
Mas algo as tornava comuns: eram
todas humanas. Não na razão, que supõe-se presente na matéria, ainda que
amorfa. Sua humanidade traduzia-se no
livre-arbítrio que manipula as diversas manifestações da vida.
Pronto. Deram-me o poder. Podia,
assim, escolher qualquer uma dessas peças voadoras, conforme a conveniência
exigisse.
Enquanto esperava a chegada,
agarrava o par de asas mais próximo e saboreava os mistérios do número sete:
cometia os sete pecados capitais, conhecia os sete sábios da Filosofia
Ocidental, desbravava a fúria dos sete mares e, quando a espera era
demasiadamente extensa, tecia longas conversas com os sete anões.
Nos momentos de euforia,
capturava em um único salto aquela crença capaz de transbordar as boas
sensações para as fronteiras do ser. Provava da felicidade em sua plenitude.
Adentrei, por várias vezes, em
domínios de outrem: danças estranhas, cerimônias e sacrifícios ritualísticos,
tomei conhecimento de heróis nacionais.
Hoje, convicto de que meus escritos
são mitos. Só lhes faltam aprender a voar.
Felipe Nogueira.
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SOBRE VOCÊS É CONTADA A POESIA...
O equilíbrio entre o prazer e a dor era eu. O sentimento que nutria essa condição permanecia inerte frente a desejos incontáveis, simples casca regrada ao arremedo de ser. Ele fora afastado pela crença na ciência, disfarce legalizado para a vontade de potência. Na outra via, ela permanecia envolta pelo sentido da fé, banhada por orações e súplicas da filha que carregava em si mesma. Ele amava a capacidade dela encantar corações distraídos. Ela amava a fala leve dele e seu gosto pelas palavras. Abriria ele mão do método científico? Estaria ela disposta a abandonar as revelações? Sim, encontravam-se deveras no conflito secular que conduzira as paixões humanas durante todo o passado, jogo tipicamente renascentista. Pelas mãos de Michelangelo o amor impossível fora esculpido e, outrossim, herdado por gerações futuras. O contemporâneo carrega no bojo o gosto amargo de amantes cujo sonho é prisão eterna. O outro é escape, fuga necessária. E os caminhos, estes são tortuosos. Havia rastros de inomináveis peregrinações, terra batida pelo andar árduo e lavada por lágrimas de almas forasteiras. Estamos fadados a percorrer o mesmo trajeto?
Felipe Nogueira
A menina que exibes
nunca é inteira, sempre metade
na metafísica dos teus segredos, conhecer-te é
navegar em vocábulos cujos significados ganham novas utilidades
Nas tuas metáforas
sonho é doce degustado, comprado na padaria da esquina
tempo é senhor precipitado, chorando gotas de ansiedade clandestina
aurora, sorriso compartilhado, roubado da ingenuidade genuína
diálogos são desencontros literários, traduzindo mimas e rimas em diários
dias tristes são cenários esquecidos na gaveta do armário
poesia, brechas de argumentos adversários
mar é paixão antiga, para o desprazer da lagoa
cores, sonhos possíveis que o travesseiro abençoa
mãos dadas, pulo naquela tarde de garoa
E no desbravar do teu faz-de-conta verdadeiro
teus negros fios tecem vínculos que me bagunçam
não por partes, mas por inteiro
Felipe Nogueira
No atual estado das coisas,
já cansado de convencionalismos,
desconfio de tudo aquilo que materializa vil submissão
Prezo pela ascendência dos bons ofícios
práticas revoltas de libertação
Arrepio
face aos desencontros literários
planejados pelo poeta aprendiz
compromissado com a arte de traduzir em diários as emoções civis
Sinto frio
quando, atento aos afagos do músico,
suas notas reciclam os passos das bailarinas
e ressaltam o sabor cáustico
dos ventos nas campinas
Teço o fio
do laço do cabelo da menina
que, com ingenuidade genuína,
sorri das trapaças disfarçadas do palhaço
Aprecio
os holofotes que, na diversidade de palcos
iluminam a vida de seres que, mortais como eu
e movidos pela mesma paixão teatral,
fazem de suas vidas um espetáculo
Eis que assim
anuncio uma viagem pela exteriorização da dominação
Sedento por cenários, personagens, sons, palavras
que transformem-me no “eu lírico” almejado
Sem mais para o momento
Felipe Nogueira
Sim,
Lembro-me com riqueza de detalhes
dos murmúrios que, rasgando tua garganta,
convidavam-me ao deleite que é ouvir tua voz
salgada como as ondas do mar quebrando vorazmente em rebentações
Lembro-me com riqueza de detalhes
dos murmúrios que, rasgando tua garganta,
convidavam-me ao deleite que é ouvir tua voz
salgada como as ondas do mar quebrando vorazmente em rebentações
Tu aproximavas-se do meu pescoço
e lançava o doce veneno de promessas ingênuas:
"Ficarei ao teu lado enquanto viverem os poetas"
e lançava o doce veneno de promessas ingênuas:
"Ficarei ao teu lado enquanto viverem os poetas"
Mal pronunciaras tuas palavras
e tu não estavas ao lado
O amargo da solidão tornara-se companheiro das noites quentes de setembro
e tu não estavas ao lado
O amargo da solidão tornara-se companheiro das noites quentes de setembro
Teus sussurros ainda ecoam em meus sonhos
alimentando uma chama que, embora o vento sorrateiro insista em apagar,
queima silenciosa no peito
alimentando uma chama que, embora o vento sorrateiro insista em apagar,
queima silenciosa no peito
Felipe Nogueira
A última coisa que senti foi a quedaE no segundo seguinte era um anjo
Voando sob trincheiras rasgando o solo
e o peito dos combatentes
A solidez sofreu abalos sísmicos
de magnitude tão intensa
que mudança era a nova ordem
A geração dos heróis fora, enfim, solapada
Do muro edificado com cimento-tradição, tijolos-dogmas
(verdades deveras frágeis)
Avistei apenas destroços
cujas cinzas reluziam incertezas
Duas opções,
(reproduzindo o clássico modelo maniqueísta):
Voar em direção a mais alta nuvem ou
Rasgar o par de asas com mãos sedentas de desejo
A tempestade brusca e repentina
foi mais veloz que a escolha do intelecto
Derrubando-me face outra realidade
tão distante da vida solidificada durante todo o tempo
Sinto frio agora
Felipe Nogueira
O que me resta são murmúrios,
e descubro que os caminhos não são seguros
Não te vejo perdido nos becos de esquinas
Nem tampouco na musicalidade das cantigas latinas,
no ingênuo caminhar das bailarinas
Não sinto tua presença num livro de aventura
Culpo sem razão o descompasso da literatura,
Em que página esconderam a ternura?
Experimento a falta do teu olhar misterioso
Só posso enxergar um campo belicoso,
repleto de trincheiras com dimensões do contencioso
É quando a rotina me prende entre seus muros
que tua ausência me persegue em cada movimento absurdo
O que reserva-nos o futuro?
Felipe Nogueira
e descubro que os caminhos não são seguros
Não te vejo perdido nos becos de esquinas
Nem tampouco na musicalidade das cantigas latinas,
no ingênuo caminhar das bailarinas
Não sinto tua presença num livro de aventura
Culpo sem razão o descompasso da literatura,
Em que página esconderam a ternura?
Experimento a falta do teu olhar misterioso
Só posso enxergar um campo belicoso,
repleto de trincheiras com dimensões do contencioso
É quando a rotina me prende entre seus muros
que tua ausência me persegue em cada movimento absurdo
O que reserva-nos o futuro?
Felipe Nogueira
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- Felipe Nogueira. Latino-americano, romântico, idealista, leitor do mundo. Poeta aprendiz...




