SOBRE VOCÊS É CONTADA A POESIA...



Conotativa

12 de maio de 2012


A menina que exibes
nunca é inteira, sempre metade
na metafísica dos teus segredos, conhecer-te é
navegar em vocábulos cujos significados ganham novas utilidades

Nas tuas metáforas
sonho é doce degustado, comprado na padaria da esquina
tempo é senhor precipitado, chorando gotas de ansiedade clandestina
aurora, sorriso compartilhado, roubado da ingenuidade genuína

diálogos são desencontros literários, traduzindo mimas e rimas em diários
dias tristes são cenários esquecidos na gaveta do armário
poesia, brechas de argumentos adversários

mar é paixão antiga, para o desprazer da lagoa
cores, sonhos possíveis que o travesseiro abençoa
mãos dadas, pulo naquela tarde de garoa

E no desbravar do teu faz-de-conta verdadeiro
teus negros fios tecem vínculos que me bagunçam
não por partes, mas por inteiro


Felipe Nogueira

Intenções líricas

7 de abril de 2012















No atual estado das coisas,

já cansado de convencionalismos,

desconfio de tudo aquilo que materializa vil submissão

Prezo pela ascendência dos bons ofícios

práticas revoltas de libertação


Arrepio

face aos desencontros literários

planejados pelo poeta aprendiz

compromissado com a arte de traduzir em diários
as emoções civis

Sinto frio

quando, atento aos afagos do músico,

suas notas reciclam os passos das bailarinas

e ressaltam o sabor cáustico

dos ventos nas campinas


Teço o fio

do laço do cabelo da menina

que, com ingenuidade genuína,

sorri das trapaças disfarçadas do palhaço


Aprecio

os holofotes que, na diversidade de palcos

iluminam a vida de seres que, mortais como eu

e movidos pela mesma paixão teatral,

fazem de suas vidas um espetáculo


Eis que assim

anuncio uma viagem pela exteriorização da dominação

Sedento por cenários, personagens, sons, palavras

que transformem-me no “eu lírico” almejado



Sem mais para o momento



Felipe Nogueira

Aceso

22 de outubro de 2011
















Sim,
Lembro-me com riqueza de detalhes
dos murmúrios que, rasgando tua garganta,
convidavam-me ao deleite que é ouvir tua voz
salgada como as ondas do mar quebrando vorazmente em rebentações

Tu aproximavas-se do meu pescoço
e lançava o doce veneno de promessas ingênuas:
"Ficarei ao teu lado enquanto viverem os poetas"

Mal pronunciaras tuas palavras
e tu não estavas ao lado
O amargo da solidão tornara-se companheiro das noites quentes de setembro

Teus sussurros ainda ecoam em meus sonhos
alimentando uma chama que, embora o vento sorrateiro insista em apagar,
queima silenciosa no peito


Felipe Nogueira

Desvio

10 de abril de 2011
A última coisa que senti foi a queda
E no segundo seguinte era um anjo
Voando sob trincheiras rasgando o solo
e o peito dos combatentes

A solidez sofreu abalos sísmicos
de magnitude tão intensa
que mudança era a nova ordem
A geração dos heróis fora, enfim, solapada

Do muro edificado com cimento-tradição, tijolos-dogmas
(verdades deveras frágeis)
Avistei apenas destroços
cujas cinzas reluziam incertezas

Duas opções,
(reproduzindo o clássico modelo maniqueísta):
Voar em direção a mais alta nuvem ou
Rasgar o par de asas com mãos sedentas de desejo

A tempestade brusca e repentina
foi mais veloz que a escolha do intelecto
Derrubando-me face outra realidade
tão distante da vida solidificada durante todo o tempo

Sinto frio agora


Felipe Nogueira

Lacuna

2 de abril de 2011
Não te encontro sentado a esmo nos bancos escuros
O que me resta são murmúrios,
e descubro que os caminhos não são seguros


Não te vejo perdido nos becos de esquinas
Nem tampouco na musicalidade das cantigas latinas,
no ingênuo caminhar das bailarinas


Não sinto tua presença num livro de aventura
Culpo sem razão o descompasso da literatura,
Em que página esconderam a ternura?

Experimento a falta do teu olhar misterioso
Só posso enxergar um campo belicoso,
repleto de trincheiras com dimensões do contencioso

É quando a rotina me prende entre seus muros
que tua ausência me persegue em cada movimento absurdo
O que reserva-nos o futuro?


Felipe Nogueira

Estado das coisas

28 de fevereiro de 2011
Deixa estar... e troco as concepções de lugar

Deixa estar... e mudo minhas opiniões sobre os fatos

Deixa estar... e o olhar distraído me conduz rumo ao desconhecido

Deixa estar... e me divirto discutindo a fantástica vida das centopéias

Deixa estar... e, numa tarde de quinta-feira, resolvo devorar Dostoievsky

Deixa estar... e me converto para o mais exótico dos credos

Deixa estar... e passo a morar na longínqua tribo da nação Aimoré

Deixa estar... e permaneço de molho nas águas diáfanas do mar

Deixa estar... e me transformo num pianista de efêmera repercussão mundial

Deixa estar... e rasgo, página por pagina, os manuais de instruções

Deixa estar... e o inesperado torna-se imperativo

Deixa estar... e meu estado fica de pernas para o ar


Felipe Nogueira

Cá de dentro

27 de fevereiro de 2011
Quem observa a casca não imagina o turbilhão cá dentro. Sou morada de colapsos intensos que de maneira voraz invadem as sinapses e interferem a comunicação convencional entre os neurônios. Há sempre um forasteiro em cada pensamento, contrariando qualquer padrão de convívio, negando qualquer modelo simplista. Ambiguidades e contradições regulam meus sentimentos. A distância entre o desejo e o desprezo se traduz numa linha tênue capaz de dissipar-se com um leve sopro. Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo: tristeza, dor, alegria, reconhecimento, amizade, empenho, saudade, medo...